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Mova o dial de um rádio de ondas curtas e você nunca saberá o que encontrará. Em meio aos chiados e à estática você ouvirá propaganda cubana, futebol do Brasil ou ópera chinesa. Ao contrário de outras transmissões de rádio, as ondas curtas, saltando para além da ionosfera, podem conectar quaisquer dois pontos na Terra. Um problema é a física: os sinais desvanecem e aumentam durante o dia. Outro risco são os governos. Na Guerra Fria, os regimes comunistas interferiam no sinal de estações ocidentais. Agora a ameaça são os cortes no orçamento.
Em 24 de junho a Rádio Canadá Internacional (RCI), financiada pelo governo canadense, encerrou suas transmissões em ondas curtas para permanecer apenas na internet. Em 29 de junho a Rádio Nederland fez o mesmo. Wojtek Gwiazda do Comitê de Ação da RCI, um forte grupo dentro da emissora, diz que os políticos pensam que as ondas curtas são uma forma antiquada de gastar o dinheiro dos contribuintes.
Mesmo os aficcionados aceitam que os dias de glória já se foram. Mas as ondas curtas continuam a ser uma boa maneira de atingir áreas remotas e pobres (um receptor básico custa menos do que 10 dólares). Graham Mytton, antigo responsável pela pesquisa de audiência da BBC, diz que o rádio de ondas curtas é barato, fácil de usar e o único meio que está em toda parte. Um desastre natural, diz ele, pode colocar transmissores locais fora do ar e derrubar a internet, mas o rádio a pilhas continuará a funcionar.
A China está expandindo suas transmissões em ondas curtas com o objetivo de atingir os ouvintes no exterior e (dizem alguns) também para interromper transmissões estrangeiras indesejáveis, como as da Voz da América (VOA). A maior emissora de ondas curtas restante, a VOA, diz que não tem planos para sucatear seus transmissores: sua audiência de ondas curtas, a bem da verdade, aumentou na última década em países como Mianmar, onde a emissora afirma ser escutada por 25% da população adulta, saltando para 75% nas áreas rurais.
As transmissões digitais de ondas curtas seriam mais límpas e poderiam também transmitir trechos de texto. A tecnologia (conhecida como DRM) já existe há anos. Mas os ouvintes não vão comprar novos rádios caros sem que haja conteúdo, nem tampouco as emissoras entrarão na era digital sem ouvintes.
Mas outras estações estão preenchendo o novo espectro vazio. A World Christian Broadcasting do Tennessee construiu um novo site de transmissões em Madagascar, o qual emitirá música em várias línguas, notícias e programação religiosa para a América do Sul, a África e o Oriente Médio a um custo anual de mais de US$ 3 milhões.
Outros vêem possibilidades comerciais. A Globe Wireless, uma empresa americana, há muito tempo utiliza as ondas curtas para serviço de e-mail marítimo para milhares de navios. Embora a velocidade de transmissão de dados (em apenas 2.400 bps) não são melhores que a de um link de satélite, o serviço é mais barato e continua funcionando caso explosões solares ou detritos atinjam satélites espaciais, diz o chefe da empresa, David Kagan. A voz das ondas curtas pode ser velha e rouca. Mas ela ainda carrega uma mensagem de forma confiável.
Fonte: The Economist
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