Sr. Robert Veltmeijer na lembrança

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O PRIMEIRO CONTATO

Para aqueles que não conheceram o colega radioescuta Robert Veltmeijer, digo que era um holandês nascido em 1926, formado em engenharia agronômica. Viveu em Portugal antes de vir definitivamente ao Brasil. Aqui após varias lutas pela sobrevivência no interior paulista, passou a morar numa casa do bairro do “Piuí” no subúrbio Oeste da cidade de São Paulo (início da rodovia Anhangüera), mais tarde veio com sua mãe, esposa e 3 filhos residir na região central, precisamente no Largo do Arouche, 418 apartamento 56.

Era filho único e em 1970 ou 71 com o falecimento de sua mãe passou por momentos de depressão. Para escapar das tristezas partiu a procura de lazer, quando então voltou a rádio escuta, uma antiga atividade dos tempos de sua juventude na Europa, época da Segunda Guerra Mundial.

Prof. Robert VeltmeijerSeu interesse fez com que agora procurasse nas bancas de jornais publicações com circuitos de eletrônica e aí encontrou a nova revista “Saber Eletrônica” editada por Apolon Fanzeres. Ao folheá-la deparou com a lista de estações de Ondas Médias que eu, então um jovem de 23 anos de idade, tinha mandado com as minhas escutas efetuadas na cidade de Angatuba-SP. Por minha vez, eu tinha enviado àquela lista, após ter visto no número anterior, as informações de Cláudio Rótolo de Morais! O editor tinha colocado no rodapé o meu endereço para correspondência. Robert ao ler, logo procurou meu número telefônico.

Causou-me grande surpresa quando naquela tarde atendi seu telefonema, era a primeira vez que eu entrava em contato com outro radioescuta, confesso que fiquei muito aturdido sem saber o que falar. Também para mim era uma época muito difícil, preparava-me para um difícil vestibular do final de ano. Aquele senhor logo identificou-se como radioescuta e foi perguntando se eu também gostava de praticar esse Hobby. Feliz, respondi que sim, e que ele era o primeiro colega com quem eu conversava, contei-lhe das discriminações que sofri dos amigos da sociedade daquela pequena cidade por ser o único ali que gostava da escuta de rádio como um Hobby.

O forte sotaque de Robert, inicialmente induziu-me a pensar que tratava-se de um senhor norte-americano. Naqueles tempos eu imaginava ir residir nos Estados Unidos da América, pois meus avós já tinham emigrado vindo da Europa. Mas logo esclareceu que era holandês de origem e prosseguindo na conversa, ficamos surpresos ao saber que morávamos perto um do outro, apenas seis quarteirões nos separavam. Eu residia ali com meus tios na rua Fortunato, 230 bairro de Santa Cecília e ele no Largo do Arouche.

O Sr. Robert, passou-me então seu endereço e combinamos que até a noitinha eu estaria em sua casa para conversarmos mais longamente. Aprontei-me e não demorou muito para que eu já estivesse apertando o botão da campainha do seu apartamento! Quem atendeu a porta foi a senhora dona Elly, que avisou o marido de minha chegada.

Deparei-me então com aquele personagem surpreendente, tinha barbas compridas e cabelos já escassos, possuidor de um forte carisma e gostava do mesmo Hobby que eu. Em nossa primeira conversa contou-me que também não conhecia nenhum radioescuta brasileiro, mas que já havia mandado algumas cartas porém ainda sem ter recebido respostas. Disse-me que gostava de ser monitor das emissoras internacionais de ondas curtas e que estava no momento ajudando a BBC de Londres. Nas tardinhas de final de semana, escutava o programa de grande audiência “Happy Station Program” da Rádio Nederland.

O JACK PEROLO

Mas, passados alguns algumas semanas daquela amizade inicial, lembrei de perguntar-lhe se ele sabia quem era o misterioso Jack Perolo? Negou conhece-lo. Contei-lhe então que desde 1963 eu era leitor da revista Popular Eletronics, onde tinha aprendido tudo que sabia sobre radioescuta, e ali sempre aparecia o nome desse “misterioso” colaborador na coluna dedicada a banda dos 60 metros… Não sei como, mas Sr. Robert logo conseguiu o endereço do Jack e dentro de uma ou duas semanas foi combinado um encontro a noite no seu apartamento do Largo do Arouche. Até então eu imaginava que Jack Perolo residia no Rio de Janeiro! Este seria o segundo radioescuta que eu conheceria. Tratava-se de um engenheiro genovês residente no Brasil desde o final da década de 50.

Em meu primeiro encontro com Jack na casa do sr. Robert, senti-me em frente a um renomado radioescuta, algo que eu não imaginava até então, além disso tinha uma brilhante inteligência. Perolo contou-nos que conhecia alguns radioescutas brasileiros, principalmente residentes no eixo Rio-São Paulo e passou o nome de alguns deles ao sr. Robert. Surpreendeu-nos pois isso indicava que já havia uma história mais antiga da pratica do nosso Hobby no Brasil.

Mas, ao ir embora daquele encontro fui imaginando pelo caminho os motivos pelo qual a Itália gerava engenheiros de tão alto gabarito como aquele o qual eu havia acabado de conhecer. Realmente surpreendeu-me pelos seus conhecimentos, além disso era extremamente organizado, era um gênio que tinha idéias avançadas para a radioescuta daquela época. Ele fez com que eu caísse na minha triste realidade, pois percebi que, apesar de todas horas dedicadas a escuta de Ondas Medias, eu ainda apenas engatinhava no Hobby. Para se ter uma idéia da minha defasagem de conhecimentos, eu era daqueles que ainda vivia sob a vontade do velho receptor valvulado com dial de cordinha. Jack Perolo construía seus próprios receptores miniaturas transistorizados, tinham sintonia mecânico-digital. Eram aparelhos movidos com rosca sem fim, Para aquela época, davam a fantástica precisão de leitura de freqüência de apenas 1 kHz! Algo de fantástico para aqueles tempos. Aos poucos eu iria aprender com ele os conceitos do design do receptor profissional de comunicações, ensinaria sobre o significado de seletividade e as vantagens dos caríssimos e fantásticos filtros mecânicos Collins, os quais ele já instalára em todos os seus receptores.

OS RÁDIOS E AS ESCUTAS DO SR. ROBERT

Mas foi assim, graças ao Sr. Robert, os radioescutas foram se ajuntando…

Foram feitos novos contatos com ele e foram aumentado os interessados no Hobby, até ele por iniciativa própria preparou sozinho para que fosse realizada a primeira reunião anual de radiopraticantes no apartamento dele ali no Largo do Arouche. Vieram colegas de várias partes do Brasil. Nessas reuniões que ali eu conheceria o grande Cláudio Rótolo de Morais, o carioca Gilberto Santos (já falecido), os fundadores do “Clube DX Internacional” da cidade de Jundiaí-SP, o adolescente Sérgio Dória Partamian e Rogildo Fontenelle Aragão (este era cearense, porém residente em Brasília).

Mas para Sr. Robert também era época de adaptações a novas atividades de trabalho. Ele que até então já tinha passado por várias delas, imaginou agora dar aulas de inglês, idioma que dominava com facilidade. Fez um curso por correspondência, os exames e então foi diplomado. Essa era a profissão que adotaria pelos seus próximos 20 anos. Seus alunos eram em sua maioria agentes de turismo. As aulas eram ministradas num quarto do apartamento transformado em sala de aula e o material didático era produzido pelo próprio Robert em um improvisado mimeógrafo construído por ele próprio.

Desses alunos, pelo menos três deles eram radioescutas, creio que motivados por quererem aprender mais sobre a cultura e idiomas de outros países. Um deles era o Mario Azzolini e os nisseis Hermano e a moça Mary (?). Estes dois últimos, parecem-me, originários do norte do Paraná e até estiveram visitando a Holanda.

Mas, até então o único receptor do Sr. Robert era um velho valvulado Philips e um pequeno “rabo quente” (nunca usado) herança dos tempos de sua mãe.

Quando casei em 77 fui morar naquele mesmo quarteirão onde ele residia. Meu prédio ficava logo ali logo virando a esquina e passando as tradicionais casas de floriculturas do Largo. Durante 4 anos tivemos uma amizade quase que diária. Lembro-me bem daqueles tempos, quando eu passava as tardinhas em seu apartamento, lá encontrava ele sempre escutando em inglês a Radio Kol Israel (sua preferida), que transmitia então fora de banda, na freqüência de 9009kHz. Ele ainda não havia adquirido o seu famoso receptor Hammarlund e sintonizava no velho Philips e também no valvulado “Deltinha” (Delta-Geloso Modelo 208 recém adquirido na loja “Meirelles”, pertencente a ao conhecido Arnaldo Meirelles-PY2FC, (este faleceu no final da década de 70, vendia instrumentos musicais e equipamentos para radio amador. A loja ficava bem em frente a estação Ferroviária da Luz, na rua Mauá, 574). Robert num ato de desespero motivado pelas interferências, deixava o BFO do receptor ligado (produzia um forte apito na sala de escuta e por isso recebia reclamos da família) pois percebeu que melhorava na seletividade, isso o ajudava a reduzir as interferências laterais.

Durante as guerras no Oriente Médio, gostava de ficar ouvindo os chamados em código feito pela Radio Kol Israel convocando os combatentes, para a guerra do Yom Kipur. Preocupado com aqueles acontecimentos, fumando um cigarro trás outro, afagava a barba para distrair-se. Creio que isso fazia sr. Robert recordar dos tempos da Holanda, na adolescência durante Segunda Guerra Mundial, quando foi ouvinte clandestino das emissoras de rádio localizadas na Inglaterra, e também do tempo em que participou da luta colonial do exército holandês na Indonésia. Com sua memória fantástica ele conhecia como nunca a história das guerras e gostava de recordar datas e principalmente detalhes sobre batalhas.

Contou-me que desapercebidamente algumas vezes precavia-se ao passar pela praça em frente do seu prédio ali no Largo, quando nunca a atravessava pelo centro e sim contornando pela calçada. Era uma prevenção adquirida nos tempos de guerra e que agora ainda o alertava após tantos anos!

Entre 29 de Maio e 1 de Junho de 1975, Robert Veltmeijer sua esposa Elly e o adolescente Sérgio Dória Partamian estiveram em Angatuba-SP, quando construímos, nossa primeira antena “Loop” para Ondas Médias, improvisando numa porta da casa da chácara “Monte Alegre”. Ficamos muito entusiasmados com o desempenho daquela antena, principalmente porque nos testes feitos durante as horas do dia (quando ela é muito mais diretiva) conseguimos separar com facilidade as estações de alcance regional. Ali ouvimos Itapeva, Capão Bonito, Piraju e Tatuí. Durante a noite estreamos escutado pela primeira vez o Senegal as 17:30 (Hora de Brasília) em 764 kHz e Argélia as 20:30h em 529 kHz. Em 2de novembro de 1976 Veltmeijer voltaria a Angatuba mas agora já levava consigo sua antena “Loop” portátil de sua criação, bastante criativa, e acompanhava o seu novo receptor transistorizado portátil Barlow Wadley Modelo XCR30 Mark II. Levou quase toda a família e lá estavam presentes a esposa dona Elly as filhas Anita e Alice, esta com o marido Nelson e os filhinhos Felipe e Juliana. Em 2 de Janeiro de 1977 ele e a esposa Elly estavam presentes em Angatuba, apenas para o meu casamento.

AS ANTENAS

Sr. Robert tinha 3 antenas instalada em seu prédio, uma delas era aquela a qual o Marcelo Toniolo citou recentemente em seu depoimento. Ela ficava junto ao receptor porém do lado de fora da janela e que cobria o setor sul. Ela era a preferida para ouvir as raras aparições da Radio Nova Zelândia em 16 metros (somente na época de atividade solar máxima) que então emitia com um fraco transmissor se não me engano de apenas 7kW, que se fazia presente apenas após as 23:00 (Brasília). Isto coincidia com a hora que seus alunos deixavam a sala de aula. Outra preferida era Rádio Taiti, em 19 metros, que começava também a chegar mais ou menos nesse mesmo horário.

Muitas vezes deixava o rádio sintonizado em uma dessas estações enquanto intercalava conversas com seu outro grande amigo e radio escuta Jack Perolo. Ambos se combinavam muito bem, um era sociável, quase um psicólogo, o outro matemático e perfeccionista. Jack, um renomado radioescuta tinha como hobby construir receptores e publicava artigos com detalhes a respeito em famosas revistas HamRadio e CQ ambas, dos EUA. Jack ia semanalmente visitá-lo e foi quem o orientou para comprar um receptor Barlow Wadley (um inovador aparelho portátil construído em Durban, África do Sul e que possuía um design arrojado e totalmente inovador para aquela época). Uma raridade, pois era uma época difícil para adquirir-se um desses aparelhos no Brasil. Eu impossibilitado em adquirir um destes rádios e animado pela juventude e pela vontade da escuta, comecei então a montar uma réplica! Um protótipo que jamais funcionaria, era a uma idéia muito arrojada, mas confesso que cheguei a construir partes do aparelho. Eu tinha um sonho, que se realizado poderia então construir aparelhos idênticos e fornecer aos demais colegas. Apenas o sonho de um solitário.

Mas a segunda antena de Robert ficava do lado de fora da outra janela da sala… Moradores vizinhos residentes nos andares superiores, não gostavam de ver aquele fio quase imperceptível, começaram a jogar volumosos pacotes de lixo (uma das vergonhas de quem reside na cidade grande) até que conseguiram quebrar o suporte da antena. Robert foi criativo em substituição colocou no lugar duas varas de pescar de fibra de vidro. Era comum ver-se aqueles volumes passando pela frente de sua janela, porém agora sua antena agüentava, apenas chacoalhava porém logo estava novamente esticadinha com sempre. A terceira antena (bem mais comprida) ficava lá no topo daquele enorme edifício, porém não era muito usada devido o medo de descargas elétricas provocadas por raios. Ele temia que queimassem seu inseparável receptor o Barlow Wadley.

Era tempos da chamada “Guerra Fria” e no cartão de apresentação da estação, tinha sua fotografia sintonizando o receptor Hammarlund e uma inscrição que alertava “Short Wave Monitor, QRV for all stations in the Free World”. ( Monitor de Ondas Curtas a disposição de todas as estações do “mundo livre”).

Como a maioria dos radioescutas, Robert gostava de geografia e lingüística. E por isso tinha com seu outro Hobby de viajar de ônibus pelo Brasil. Esteve visitando várias regiões do nosso País.

DEUS ABENÇOE ESTA BAGUNÇA!

Com o Sr. Robert acontecia o mesmo que com a maioria dos nossos colegas. Não gostava que alguém, no seu caso a esposa dona “Elly” (Petronela de Fruit), arrumasse seu shack e dali tirasse as coisas do lugar. Segundo ele, tudo sempre estava fora do lugar como queria. Para ironizar ele tinha um cartaz pendurado na prateleira onde estava escrito “Deus abençoe esta bagunça!”. Mas em verdade, ele era bastante organizado.

Em 1981 mudei de residência e então escasseara-se nossos contados. Fui deixando de participar daquelas reuniões anuais promovidas por ele e aos poucos já não tinha mais notícias de todo aquele pessoal.

O FIM

Por volta de dezembro de 1994 fui procurado por Sérgio Dória Partamian, que contou-me que o Sr. Robert padecia de uma séria doença e encontrava-se em convalescência. Sérgio apareceu de repente em meu apartamento da rua Marquês de Itú, para irmos fazer uma visita à Robert que residia a apenas 4 quadras dali. Confesso que fui bastante ansioso e fiquei quase em pânico ao batermos em sua porta. Trêmulo ao entrar, logo percorri com os olhos da imagem embaçada pelo nervosismo na procura dele. Estava meio sentado, meio deitado no sofá, e vi aquele homem debilitado, com a pele descansando sobre os ossos. Meus Deus! Fiquei sentado irrequieto na ali na cadeira, e acabei não prestando a devida atenção, quando ele contou-nos que a doença era incurável! Pensei que era um mal que daria para ir-se, como se diz “levando…” Disse-nos que o regime alimentar era horrível.

Depois de uma longa conversa, já íamos nos despedindo, quando ele insistiu para que permanecêssemos mais, pois “pode ser que daqui dois meses eu já terei voltado a dar aulas de inglês e daí não terei tempo para atendê-los”. Em realidade ele já previa o que estava para acontecer… Ficamos mais um pouco e então tivemos que ir embora, porém percebi que ele tinha ficado feliz com nossa visita. Deixou-nos no mês de janeiro de 95. Seu corpo foi cremado.

O LEGADO

Robert deixou-nos boas lembranças sobretudo sobre o seu esforço sua por unir-nos por este ideal. Hoje, muitos radioescutas se conhecem, se tornaram amigos, graças ao Sr. Robert. Seu sonho foi realizado. Lamento que ele tenha ido embora antes sem ter conhecidos os novos associados do DXCB e também ter tido a possibilidade de transmitir sua experiência de vida.

Depoimento de Francisco R. Turelli – ano 2000

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