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Receptores de ondas curtas: reminiscências e considerações. Parte 2

4- COLLINS xxx

Para encerrar esta sessão, ocorre citar a empresa que, no período 1950-1970, revolucionou os padrões mundiais de receptores.

 

CollinsA empresa foi fundada por Arthur Collins em 1934, quando começou a fabricar transmissores. Ela alcançou uma nova dimensão pela enorme quantidade de transmissores fabricados durante a 2 a .Guerra Mundial. Ao terminar a guerra, a Collins era uma das grandes empresas do ramo, justamente famosa pela qualidade de seus produtos.

 

Ela começou a produzir receptores em 1947, quando lançou o 75A-1 (cobrindo apenas as bandas de radioamadores); em 1949 lançou o 51J (para uso profissional), com cobertura continua de 500 a 30500 kHz e em 1951 o R388-URR para uso militar com cobertura continua de 540-30500 kHz em 30 bandas de 1 mHz de largura cada.

 

O sucesso inicial da empresa foi relativamente lento, devido essencialmente a 2 fatores:

 

Os produtos dela eram extorsivamente caros:

Muitas das características destes novos produtos eram tão revolucionárias que não havia usuários para apreciá-las: o mercado pareceu ser apanhado de surpresa e levou tempo para absorver o impacto das inovações que a Collins introduzia.

 

A mais, o estabelecimento da lenda Collins ocorreu antes na área militar/profissional onde as novas características eram mais procuradas/apreciadas e o fator preço menos limitativo. Na verdade e sem nenhum exagero, deve ser dito que a Collins passou a oferecer uma classe de receptores que nenhuma empresa do mundo de longe dispunha.

 

As grandes inovações foram:

  • Leitura direta de freqüência em todas bandas até o ultimo kHz (podendo interpolar com boa segurança até 0,25 kHz)
  • Receptor de múltiplas conversões usando o oscilador de sintonia (VFO) entre aproximadamente 2 e 3 mHz: o corrimento de freqüência dum oscilador é função da freqüência em que opera (ou, em outras palavras, um oscilador de 2 mHz é inerentemente mais estável que o oscilador do AR-88 que, no momento em que o receptor estava sintonizado em 30 mHz, estava operando em 30735 kHz). A mais, no caso da Collins, essa estabilidade e a MESMA em todas as bandas.
  • Invenção/introdução do filtro mecânico para FI, permitindo uma atenuação e banda passante/ curva de resposta/ seleção de largura de bandas sem precedentes.

 

Essas inovações, todas elas revolucionarias tiveram uma contrapartida (no free lunches), a saber:

 

  • Como já dito, são produtos MUITO caros;
  • Sistema mecânico de sintonia muito complicado (Os Collins da série 51J movimentam simultaneamente o núcleo de ferrite dentro de mais de 10 bobinas)
  • Os filtros mecânicos são muito delicados, nunca sobrevivendo a uma queda acidental no chão: o fato dos filtros da série J terem configuração cilíndrica não ajuda, uma vez que facilmente rolam fora da bancada de trabalho.
  • Manutenção/calibragem do VFO somente possível na fábrica ou por empresa especializada treinada pela Collins.

 

Entretanto o que a Collins oferecia era essencialmente o que o mercado queria e que ninguém mais oferecia: assim se criou a lenda Collins.

 

O receptor para amadores evoluiu até o 75A-4, fabricado até 1958, quando foi substituído pela linha 75S xx, mais leve e de menores dimensões que seguiu até 75S3C, parado de fabricar em 1975 . A linha profissional seguiu até o 51J-4 fabricado até 1963, quando foi substituído 51S-1.a linha militar passou do R-388 já citado para o R-389, R-390, R-391 e R-392, destes, o ultimo a sair de produção foi o R390A/URR, que foi fabricado até 1985.

 

O velho Art Collins apostou na década de 60 no emergente mercado de telecomunicações por satélite, em direta competição com a Hunghes, Bendix e outras. Tentou novamente inovar e sair com produtos revolucionários antes da concorrência, mas não conseguiu: o esforço financeiro de desenvolvimento de novos produtos excedeu os limites de recursos da Collins, que inicialmente se endividou para continuar nesta aposta e que em 1974 foi obrigada a ser vendida para a Rockwell International para evitar a falência.

 

A evolução da Collins seguiu a curva dos dinossauros: a empresa que em 1950 tinha revolucionado o mundo utilizando soluções mecânicas, não percebeu que o mundo eletrônico estava mudando e continuou a oferecer os mesmos produtos em 1970 quando já estavam disponíveis no mercado, alternativas equivalentes utilizando soluções eletrônicas que tinham se tornados possíveis com o advento dos transistores e dos circuitos integrados. De repente, os resultados que podiam ser obtidos com 51S-1 de 17 válvulas, pesando 12 kg, consumindo 125 W e custando na época US$ 7.500,00 passaram a ser possíveis com receptores que consumiam 20 a 30 W, pesando 3-4 kg, custando muito menos, tendo leitura digital eletrônica com pouquíssimas peças moveis. Os novos filtros a cristal de freqüência elevada e os sintetizadores de freqüência possíveis nestas condições oferecem sintonia e atenuação igual a dos filtros mecânicos, custam menos, são menos delicados e podem ser fabricados numa gama de freqüências incomparavelmente mais ampla.

 

De repente a Collins, precisando de recursos extras para desenvolver as novas linhas de produtos, se encontrou plantada sobre uma linha de produtos obsoleta e que continuava sendo muito cara (uma vez que as soluções mecânicas por ela mantidas não eram facilmente barateáveis para produção em massa, como ocorreu com circuitos impressos e com as soluções eletrônicas que os substituíram).

 

Tive 3 receptores da Collins a saber:


4.1 Modelo 75S3-C

Adquirido novo, este era o modelo especial para radioamadores que tinha um módulo auxiliar para 12 cristais comutáveis, que utilizei para cobrir as bandas de ondas curtas (levando o receptor para um total de 24 bandas).

 

Características positivas

a) Sintonia espalhada ótima em todas as bandas;

b) Posição do Knob de sintonia ergonomicamente muito boa;

c) Excelente banda passante e resposta de filtro de FI (2,1 kHz), com baixa atenuação do sinal:

d) Receptor pequeno/leve/bonito e,

e) Muito estável após o aquecimento inicial.

 

Defeitos

a) O receptor não é particularmente sensível (apesar do rating de fabrica de 0,.5 m V para 10 dB S/N) : o HQ 180 era infinitamente mais sensível (Tendo efetuado muitas comparações diretas, comutando a mesma antena, quando tinha estes 2 receptores sobre a mesa);

b) A largura de banda passante de RF é somente 200 kHz, demandando comutação freqüente para escanear as bandas;

c) Caro;

d) Por ser modelo especial não se encontrava nas lojas e tinha que ser encomendado, assim como os cristais especiais, levando em um prazo de entrega de vários meses.


75a44.2 Modelo 75A-4

Adquirido em estado de novo de oportunidade da viúva de um radioamador e conservado até hoje como lembrança.

 

Características positivas

a) Leitura analógica até o kHz; por interpolação consegue-se até 0,25 kHz;

b) Após o aquecimento inicial é estável;

c) Boa seletividade de FI, devido ao filtro mecânico e,

d) Escolha de seletividades de FI (se tiver sido equipado com mais de um filtro mecânico).

 

Defeitos

a) É grande e pesado, tomando muito espaço sobre a mesa;

b) Só cobre as bandas de radioamadores, demandando um conversor externo para cobrir as faixas de broadcasting;

c) É pouco sensível (3 m V para 6 dB S/N), apesar de que isto melhora usando os conversos acima;

d) A posição do knob de sintonia é cansativa para as sessões prolongadas de escuta;

e) Valvulado, usa algumas válvulas exóticas que, já na época de sua fabricação eram caras.O plástico usado para o dial sofre um amarelamento acentuado com o envelhecimento.


51J-44.3 Modelo 51J-4

Adquirido de oportunidade da Western Union quando ela perdeu a licença para operar no Brasil: o receptor era um stand-by para serviço de radioteletipo, estando na caixa original. Mesmo sabendo que não o usaria, não resisti a tentação de comprá-lo, especialmente depois da Western ter permitido abri-lo e ter verificado seu estado imaculado.

 

Características positivas

a) Cobertura continua das bandas de 1 mHz de 550 kHz a 30,5 mHz;

b) Leitura analógica direta de freqüência em todas as bandas de com precisão de 1 kHz (ou até 0,25 kHz por interpolação);

c) Estável;

d) Boa seletividade devido ao filtro mecânico, tendo soquetes extras (com seleção por chave no painel frontal para instalar diversos filtros mecânicos de diferentes bandas passantes).

 

Defeitos

a) Grande e pesado;

b) Pouco sensível (3 m V para 6 dB S/N);

c) A posição do knob de sintonia é cansativa para sessões prolongadas de escutas;

d) O knob de sintonia aciona um trem de engrenagens muito extenso, demandando muito esforço e sendo assim cansativo varrer as bandas;

e) A calibragem/manutenção caseira somente é possível tendo o manual de manutenção, um laboratório bem equipado e conhecimentos eletrônicos;

f) (Apenas no meu caso): por ser uma versão para rack, é desajeitado para ser usado sobre uma mesa e,

g) Os filtros mecânicos extras (Série J) são caros (atualmente ao redor de US$750 cada).


5. CONCLUSÕES

Todos os receptores acima fazem parte da historia das telecomunicações, chegando a ser, nalguns casos, os melhores receptores que a tecnologia da época podia oferecer. Apesar de que alguns deles ainda hoje permitiriam a escuta sistemática de ondas curtas em condições significativamente superiores a muitos receptores transistorizados não de comunicação disponíveis no mercado (especialmente com relação à seletividade), resta o fato que a maioria dos receptores de hoje costuma ser mais estável (por não haver aquecimento significativo dentro do receptor), bastante sensíveis e, sobretudo com leitura direta de freqüência, permitindo uma identificação segura e conveniente do canal que está sendo sintonizado. A mais, são unidades pequenas e leves, que podem ser mais facilmente alojadas sobre a mesa.

 

No caso de um receptor de melhor qualidade, há ainda o oscilador de fase controlada, com boa estabilidade desde o momento em que o receptor é ligado, assim como os filtros para FI de alta freqüência (40-70 mHz), que proporcionam uma eliminação de imagens e sinais espúrios que até 15 anos atrás eram impossíveis de alcançar.

 

Por Jack Perolo


Receptores de ondas curtas: reminiscências e considerações. Parte 1



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