Sintonizando a banda dos morcegos

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 “A influência do cinema e das histórias em quadrinhos cria uma forte imaginação nas pessoas, principalmente nos ainda jovens…”
Mas antes, digo que para ser publicado este artigo de escuta dos morcegos, gostaria de esclarecer aos leitores, que me creiam, fui levado por uns 6 anos de análise numa autocrítica para finalmente concretização deste fato. Explico: por tratar-se de tema polêmico, tinha o receio de incomodar os exigentes, como toda novidade que quebra a monotonia, e de ser mal interpretado e então ter de submeter-me já às prévias censuras. Porém, a vida avança rápido, e quem sabe se de repente, já não me sentirei habilitado exclusivamente pelos anos que avançam rapidamente e creio que se não transmitir logo a vocês, isto poderá se tornar algo cada vez mais improvável…
Mas incrível, como é importante para nossa formação, aquilo que vem da imaginação atiçada por produtores de cinema e de histórias em quadrinhos, as aventuras que nos influenciam, os pensamentos que voam, nos levando a passeios por ideias fantasiosas, despertando-nos a criatividade. E, foi por isso, que a escuridão da noite mais ainda animou-me, a tentar ver o invisível.
Vejam que homens já adultos hoje ainda guardam com todo carinho as influências daquela antiga série de TV Space Track. Parece-me mesmo que ainda existem lojas que vendem roupas e souvenirs a respeito dos personagens do seriado… Comprovadamente, muitos projetistas espaciais também se embalaram naquelas imaginações para criar novas tecnologias…
Mas, isto já é de minha família, pois influenciado por filmes de Tom Mix (um “mocinho” criado por Hollywood na década de 20 e 30), no ano de 1937 um meu ascendente, foi morto com um tiro na cabeça lá na cidade de Londrina-PR, época meio selvagem quando aquela região atraia pioneiros vindos de todos os lados do Brasil, pois estavam então nas fantasias de ir a buscar riquezas daquela terra roxa e riquíssima, ainda a ser explorada. Meu parente (assim me contam) gostava de montar a cavalo e ser igual aquele mocinho do velho oeste com revolver na cintura, algumas vezes passava-se como um justiceiro e disparando alguns tiros para o alto, mostrando sua valentia. Não era bandido, mas se julgava poderoso defensor das leis, igual àquelas cenas que via passando nas telas do “cinema mudo”.
O detector de morcegos
Mas eu na minha infância, sou nascido no final dos anos 40, no final da década de 50 e inicio da de 60, quando éramos pouco influenciados pela televisão, mas muito mais pelas revistas em quadrinhos do “cowboy” Roy Rogers e o índio Tonto, Fantasma, Pato Donald, Batmasterson, Superman e também os homens morcegos Batman e Robin. Naqueles tempos tinha “Flash Gordon” um aventureiro espacial, mas que não chegava a me atrair a imaginação…
Mas, ao ver aquelas façanhas do “Superman”, com sua vista de raios-X e um superouvido… Aquilo, que sem perceber me atraia em pensar se não seria possível, criar daquela façanha, mas cá entre nós os simples mortais humanos. Vejo que já em 1963 foi por isso que estando na sétima série do ginásio me cativava conhecer os raios infravermelhos e a possibilidade de com eles enxergar através das paredes… Pois nós sabemos que existe mesmo um mundo invisível do qual não podemos ver ou ouvir, mas que está existente, perceptível muitas vezes a alguns animais que nos rodeiam, já nascidos com essas capacidades de sentido… Assim, sempre quis ter um ouvido tão agudo quanto àquele dos cães e mesmo as orelhas dos morcegos. Mas naquela época, isso apenas poderia acontecer em experimentos feitos em laboratórios, onde poucas pessoas poderiam ser autorizadas a um acesso para trabalho… Porém agora com a popularização dos componentes eletrônicos e ajuda do computador, isso se tornou facilmente possível, mesmo a ser feito em casa. Quando me apercebi dessa nova possibilidade da realizar este antigo sonho então, finalmente por cerca de dois anos inteiros, passei as noites escutando os morcegos, descobrindo aquele mundo inaudível, mas que podia ser detectado no meu rádio receptor Sony ICF 2001-D! E, com eles aprendi muitas coisas! Que, principalmente para a correlação que existe entre morcegos e o nosso hobby e o poderio criativo daquele ente supremo que chamamos Deus.

O Detector de morcegos

Os morcegos operam quase que totalmente na banda de ultrassom, isto em frequências de áudio acima de 16 kHz, logo onde termina a capacidade humana da audição. São chamados de “Batdetectors” os aparelhos para sintonizar a banda que eles emitem. E para isso, existem 3 tipos básicos de detectores, em diferentes possibilidades de transformar essas frequências tão altas para mais baixas para o audível. Aqui me contenho apenas a um deles, ao método usado por mim com o efeito “superheterodino”.
Banda dos morcegos
Desta forma toda a banda dos morcegos que vai de áudio 16 kHz a 100 kHz, quando um microfone capta o sinal passa então por um conversor, isto é, mistura-se com outro vindo de oscilador local, igualzinho aquele existente no aparelho do nosso rádio receptor. Exclusivamente no meu “batdetector” tenho um oscilador local que opera em 1000 kHz, correspondente a parte bem central da banda de Ondas Médias. Queira ver o desenho comparativo de como opera um receptor de ondas médias iguais ao Trasnsglobe (que usa frequência intermediaria (FI) de 455 kHz) e o funcionamento do meu Batdetector com FI de 1 MHz.
O Detector de Morcegos
Note que no local onde é injetado o sinal da antena de ferrite no nosso receptor de ondas medias, foi substituído pelo sinal de um microfone de eletreto! Essa é a mudança principal e a FI que era de 455 kHz passou a ser de 1 MHz mais a frequência de ultrassom do microfone de eletreto. Daí o sinal que sai do Batdetector, passa por outra pequena antena de ferrite, que substitui o primeiro transformador de FI, porém está sintonizada em 1 MHz. Assim, o sinal poderá ser repassado ao nosso rádio de escutas, que em meu caso era o rádio Sony ICF 2001-D. A antena de ferrite do sinal de saída do Batdector induz um sinal na própria antena do nosso rádio de escuta. Em meu caso o Sony ICF 2001-D. Assim, não há contato físico entre ambos os aparelhos, evitando possíveis acidentes e prejuízos.
No meu rádio Sony eu escutava em 1 MHz o sinal do oscilador local do Batdetector, mas à medida que me distanciava dele isto é girando o botão de sintonia. Digamos até 1010 kHz então eu já captava o som correspondente à frequência de 10 kHz do áudio vindo do próprio microfone de eletreto. Se sintonizado em 1020 kHz então eu já estava escutando os 20 kHz dentro da banda dos morcegos e assim por diante… Queira ver o desenho.
Sintonizando os morcegos
O único fator limitante a minhas escutas de todo o espectro usado pelos morcegos, era a perda de sensibilidade do microfone de eletreto. Com aquele que eu usava, não conseguia captar sinais acima de 22 kHz! Mas, existem alguns que podem chegar a frequências tão altas quanto os 100 kHz, mas para obtê-los é preciso importar. O primeiro sinal de morcego que pude escutar estava dentro da banda do espectro de áudio do ser humano, ainda que escutemos mal por ser som muito agudo, operava em 12 kHz! Realmente, foi fantástico, emitia um som muito forte e de grande alcance, de 100 ou 200 metros. Todas as escutas foram efetuadas na rua Marques de Itu, 293, apto 404, numa região mais movimentada na parte central da cidade da capital paulista. Interessante observar que as pessoas passando na rua, muito preocupadas com o dia a dia, não se apercebiam da grande revoada daqueles pequeninos mamíferos, numa vida noturna e intensa dos morcegos. Mas, agora graças ao Batdetector eu os acompanhava intensamente tudo aquilo e por isso vibrava realizando minhas fantasias vindas dos meus tempos de criança, mas quem diria, agora ouvindo no meu rádio Sony, como se fosse uma estação de ondas médias.
Terminando, se você interessou-se pelo assunto, queira ler a seguir, uma homenagem que presto ao meu grande amigo de juventude José Pinto Sobrinho, que já completou 3 anos de seu falecimento. Felizmente, antes disso ele já tinha lido este meu artigo.

JPS anda escutando morcegos!

Outro dia fui visitar o JPS, meu velho amigo que conheço desde os tempos de adolescência quando fazíamos experiências com pequenos transmissores de rádio em Ondas Medias, lá em Angatuba-SP.
Ao entrar em seu apartamento o encontrei no Shack segurando o cabo de madeira de um ferro de soldar quente.
Após os cumprimentos perguntei o que estava fazendo ali, quando me respondeu:
-Foi bom que você apareceu Turelli porque estou terminando de trocar o microfone do meu detector de ultrassom. Queria mesmo mostrar-lhe…
Perguntei: – Ultrassom? Mas para que serve isso? Não é aquele aparelho que os médicos usam para descobrir o sexo do bebê? Para que você quer isso?
JPS respondeu: – O ultrassom tem mil e uma utilidades, mas começo pelo princípio, explicando o que isso significa. É um som que está na maioria das vezes além de nossa capacidade de ouvir.
Perguntei: – Mas uma pessoa normal sem problemas de audição não ouve todos os sons? Que história é essa?
Respondeu: – Não. Nossa capacidade auditiva é limitada. Como se fora um rádio receptor capaz de escutar somente a banda de Ondas Médias. Só da para ouvir de tanto até tanto não mais além. Assim ocorre com nosso ouvido da para escutar de 20 Hertz a uns 17 Kilohertz. Ficou estabelecido que os sons abaixo de nossa capacidade auditiva de 20 Hz se chamariam infrassons e os acima de aproximadamente os 17KHz, de ultrassom. Após os 40 anos de idade as pessoas vão diminuindo naturalmente esta capacidade. Eu aos meus 51 anos já não consigo mais escutar acima de 14 kHz.
Achei o assunto interessante: Ainda bem que tinha levado comigo uma folha de papel e caneta, então como uma espécie de repórter do boletim “Atividade DX” fui anotando o que o JPS dizia, porque agora falava de frequências e é exatamente disso que os rádio escutas gostam de ouvir.
Perguntei: – Mas além dessa banda de audição não dá para ouvir nada mesmo?
JPS respondeu: Dá sim, mas não aos seres humanos. Por exemplo, abaixo dos 20 Hertz os sons têm capacidade de se propagar a longas distancias. Tenho um fato para contar; em 1883 quando entrou em erupção o famoso vulcão de Kracatoa no oceano Pacífico, a explosão foi tão violenta que horas após seu infrassom foi registrado pelos instrumentos do Gasômetro de Paris a milhares de quilômetros de distancia. Os elefantes usam o infrassom para comunicarem entre si e os pombos, para orientar-se nos seus longos voos. Os cientistas, para detectarem explosões nucleares ocorridas ha longas distancias. Mas este instrumento aqui foi construído especialmente para detectar apenas os ultrassons, que são produzidos por ruídos gerados dentro de nossa casa e por animais e alguns insetos. Os ultrassons só propagam-se a curtas distâncias, porque logo são atenuados pelo ar.
Surpreso falei: -Mama mia! Não acredito! Quer dizer que dentro desta caixinha de alumínio tem componentes que torna possível ouvir aquilo que não escutamos?
JPS responde: – É isso aí mesmo, mas na parte concernente apenas aos ultrassons!
Esta é a minha intenção, descobrir um mundo que existe em torno de nós, mas que somos incapazes de perceber no dia a dia, pois está além da percepção da audição humana.
Pergunto: – JPS dê-me um exemplo daquilo que você pretende ouvir.
Responde: – É claro, que tudo aquilo que produza ultrassom. Por exemplo: Dentro de casa as maiores fontes destes geradores estão no esfregar das mãos, no amassar de saquinhos de plástico de supermercados, no efervescer de remédios antiácidos, no oscilador horizontal do aparelho de TV que opera em 15,75 KHz (quase no limite de nossa audição), no chacoalhar do molho de chaves, etc… No trânsito da rua o ultrassom é produzido principalmente pela fricção das sapatas do freio dos automóveis, impressionante como estes são ruidosos. Se mergulharmos um microfone especial no mar e usarmos este aparelho aqui mesmo, que por sinal é muito versátil, poderemos escutar os sonares de navios e submarinos.
Contesto: – Até aí não vi nada de interessante que poderia escutar!
JPS contesta: – É, mas o mais fascinante, eu deixei para contar por último, que são os sons, quero dizer, os ultrassons produzidos pela natureza.
Você sabe que eu, igual a você sou lá de Angatuba, mas eu fui criado no sítio e ainda pequeno tive que ir embora para viver na cidade grande. Aqui em São Paulo apesar de toda esta pujança, sempre me faltou o contato com a natureza, pensei em ter em casa vasos com plantas, cachorros, gatos, hamsters, pássaros na gaiola, mas desanimei porque a sujeira que trazem… e sempre senti pena dos animais que eram para viver livres, fiquem presos em quatro paredes de um apartamento ou numa gaiola. Pensei, pensei e então encontrei uma solução que no mínimo foi muito exótica.
Em minha cabeça tentei adiantar: – Mas o que será que JPS imaginou desta vez …
E ele prosseguiu: – Mas, olha não vá levar susto! Devo preparar antes você. Pensei, pensei mesmo, e concluí que o único animal que poderia observá-los livres e além do mais muito exótico, são os morcegos!
Assustado pergunto: – Os morcegos? Você não está pirado não? De onde você tirou isso?
Inconformado insisto: – Mas isso é bicho de estimação? Eles não são essas aves noturnas que trazem mau agouro? Cujas asas entram como ingrediente no caldeirão das bruxas? As pessoas gostam de mata-los porque eles chupam sangue!
JPS me interrompe para dizer: – Nada disso! Você está totalmente errado! Erradíssimo! Vou começar pelo fim: Primeiro, os morcegos não são aves, mas mamíferos iguais nós. Exatamente isso! As fêmeas têm mamas e produzem leite para alimentar os filhotes e estes são bem protegidos. Segundo, não trazem mau agouro algum, pelo contrario, a maioria das espécies são devoradoras de insetos, principalmente de mariposas e besouros que se alimentam dos milharais e dão prejuízos a várias outras culturas, de onde vêm nossos alimentos. Terceiro, de muitas espécies de Morcego, apenas uma delas e que vive aqui na América, se alimenta de sangue e podem transmitir raiva (hidrofobia).  Mas os morcegos que pegam essa doença morrem também após poucos dias. É bom lembrar que Gatos e cachorros e aves também transmitem doenças graves ao ser humano.
O interessante deste meu novo Hobby é que eu não preciso cativá-los aqui em casa ou prendê-los nas mãos, com este aparelho apenas escuto os áudios emitidos por eles quando as noites voam livremente entre estes prédios!
Agora quanto essa vontade de matar morcegos, isso existe mesmo, mas é um ódio infundado que as pessoas têm, são coisas incutidas nas cabeças das crianças, e por isso é difícil mudar a mentalidade de um adulto. O Homem se sente poderoso, dono do mundo, julga-se com o direito de matar as demais espécies animais e com isso acaba por destruir a própria natureza, que lhe criou. Eu vivendo há anos nesta selva de concreto, aprendi muito, e hoje não mato nem mais formigas. Sou submisso e respeito à mãe natureza, se não logo, logo acaba este mundo e não restará nada para nossos netos verem.
JPS prosseguiu em sua defesa: – Você sabia que o morcego mais famoso dos Estados Unidos da América é o “Tadarida brasilienses”? É isso aí, um nome em latim que afirma que ele é brasileiro e ninguém sabe disso por aqui. Lá no Estado do Texas, milhões deles habitam as cavernas. Mas lá não são perseguidos como os daqui.  Na cidade de Austin, está localizado o centro mundial de estudo proteção aos morcegos.
É uma organização não governamental, com milhares de associados, que bancam pesquisas sobre o habitat daqueles mamíferos, protegem buracos de antigas minas abandonadas onde ficam os criadouros, fazem ninhos em caixas de madeira, que são pendurados no sótão das casas das fazendas e embaixo de grandes pontes.  Lá eles ficam protegidos porque combatem as pragas da lavoura. Os americanos como sempre, sabem ganhar dinheiro e descobriram até um jeito de explorar essa maravilha da natureza, para melhor poder preservá-los. Milhares de turistas veem todos os anos a Austin para verem a revoada de milhões de morcegos durante o por do sol. Essa se transformou numa das principais atividades lucrativas daquela cidade. Quem diria, ein!
Pergunto: – Mas aqui em São Paulo, ainda sobrevive algum morcego?
Morcego usando seu radarSorrindo ele responde: – Tem sim! É lógico! São animais migratórios, notei que por aqui eles estão mais presentes nos meses frios de inverno. Em outras épocas do ano restam poucos, pois migram para viver temporariamente em outras regiões da América do Sul.  Aqui bem no centro desta megalópole posso detectar o ultrassom de pelo menos duas espécies deles, sobrevoando perto da janela de meu shack.  Ainda bem que eles habitam por aqui, pois devoram os pernilongos que nos incomodam a noite, perturbando nosso sono e sugando o sangue, com a possibilidade de transmitir-nos doenças graves como a Dengue. No mês de Agosto e Setembro quando aparecem aquelas nuvens de aleluias, uma forma alada de cupim que devoram as madeiras dos móveis de nossos apartamentos, são exatamente os morcegos os grandes combatentes contra esta esperta praga, que só saem após o pôr do sol impedindo a ação dos pássaros. Por sinal, tenho aqui umas gravações de morcegos que foram feitas logo após o pôr do sol de uma noite de agosto do ano passado, quando do sobrevoo das aleluias. Mas infelizmente eles estão diminuindo bastante. Há apenas três anos passava um morcego cada quinze minutos aqui perto do meu shack, hoje estão vindo com intervalos de meia hora. O Homem está tendo êxito em exterminá-los!
Continuo: – Então, quanto menos morcegos houver, mais necessário será irmos ao supermercado comprar inseticidas e haverão mais picadas de pernilongos e mais móveis devorados pelos cupins! Um ciclo que só acaba em prejuízo como numa guerra perdida.
JPS confirma: – É isso aí! Você está começando a descobrir o valor dos Morcegos!
Aproveito para Perguntar: – Mas como é que você conseguiu gravar o ultrassom se não podemos ouvi-lo, penso que não serviria para nada!
JPS responde: – Ah! Mas é aí que entra este aparelho que estou testando, ele recebe os sinais de ultrassom e os converte para aquela banda de áudio que o ser humano pode ouvir. Eu gravo áudio frequências e não o ultrassom que estaria longe das possibilidades de registro de uma fita cassete que só chega até a 8 Kilohertz. Por isso foi o meu empenho em construir este conversor, que é conhecido no mundo científico como “Bat Detector” (Detector de Morcegos).
Pergunto: – É essa caixinha aí?
JPS responde: – Exatamente!
Como rádio escuta não poderia deixar de pergunta: – Mas onde você coloca a antena?
JPS responde: – Mas o que é isso Turelli! Isso é pergunta que se faça?! No Detector de Morcegos o microfone faz o papel de antena.
Falo: – Desculpe-me JPS é que eu pensei que frequências acima de 17 KHz fossem da banda de VLF (Very Low Frequency)!
JPS responde: -Errar é humano, principalmente para quem está aprendendo. Não há problema. Você enganou-se também quando confundiu VLF com ultrassom. VLF são ondas de rádio e precisam de antena para recepção enquanto que ultrassom é recebido com o uso de microfones porque são áudio frequências. Mas, existe uma curiosidade a respeito. O comprimento de onda que os morcegos ouvem se fosse
convertido para as ondas eletromagnéticas corresponderia ao espectro das micro-ondas! Não é fantástico?
Concordo e pergunto: – Sim, muito interessante, mas como funciona o Detector de Morcegos?
JPS explica: De uma forma muito parecida com nossos receptores superheterodinos. O sinal captado pelo microfone passa pelo estágio misturador, quando ocorre um batimento com um sinal vindo do oscilador local.  Como resultado daí sai uma FI (Frequência Intermediaria) que já pode estar dentro da banda de frequências que ouvido humano é capaz de escutar, ou se preferir, pomos o oscilador local para operar em 1 MHz, e como resultado dá uma FI que podemos captar em nosso rádio receptor. Então é aí que escutamos os morcegos. Este último método é o meu preferido.
Incrédulo pergunto: – Você anda escutando morcegos no seu rádio?
JPS responde: – Exatamente! O sinal da FI vindo do conversor passa por uma antena de ferrite posta em paralelo ao meu receptor para induzir o sinal. O meu rádio fica sintonizado em Ondas Médias numa frequência perto de 1 Megahertz. Apenas tenho que ligar o BFO para dar aquele “brilho” no sinal dos morcegos, sem isso ficaria mais difícil escutá-los. É mais ou menos assim que funciona este aparelho.
Deixe-me então mostrar esta gravação que está aqui, do ataque de bandos deles às aleluias de Agosto. Veja só como aqueles pequenos voadores são úteis: Liga o gravador e então vem aquela enormidade de barulhos parecendo uma batalha do filme “Guerras nas Estrelas”. Impressionante!  Pude sentir o desespero dos morcegos ávidos de fome, querendo abocanhar todos aqueles insetos.
O som parecia mais ou menos assim: Fiu, Fiu Fiu, Fiu Fiu… Pruuumm, Pruuummm.
Falo ao JPS: – Puxa vida, mas que apetite! Pergunto para o JPS o que são aqueles Prummmms…
Ele como que emocionado respondeu: – Vocês rádio escutas têm lá no boletim “Atividade DX”, a coluna chamada “DX Utilitário” em que dão frequências de recepção de Navios, Aviões etc… Lembro-me que você mostrou-me um exemplar.
Respondo: – Sim, mas não tem a coluna dos morcegos…
JPS respondeu forçando um sorriso de quem não achou graça: – Não é a isso que me refiro. Você não deixou explicar que os morcegos produzem aquele som para detectar insetos iguais aos radares que detectam aviões e isso tem que ver com a coluna de DX Utilitário. Os cientistas já estudam há anos para aprender com os morcegos, para melhorar os radares e deixá-los mais inteligentes. É que os Morcegos para descobrirem os insetos na escuridão usam o método chamado de ecolocação. Igual ao radar aeronáutico, quando o morcego produz aqueles lentos e espaçados Fiu, fiu, fiu, ele está emitindo ultrassons para navegar e daí orienta-se e até detectar um inseto a longa distancia. Quando ele está perto da presa, faz aquele Pruuummm, ou seja, aumenta a repetição dos impulsos emitidos para poder confirmar melhor se é mesmo de um inseto, o tamanho, se já é uma espécie conhecida que ele está acostumado devorar, etc…
O radar para o controle do trafego aéreo opera da mesma maneira. Existem dois tipos, um para longo alcance e outro nos aeroportos apenas para o tráfego local. O morcego tem os dois e funcionam alternadamente de acordo com a necessidade.
Pergunto: – JPS como é que você faz para atrair os morcegos para virem “cantar” no microfone?
Respondeu sorrindo: – O Detector de Morcego não funciona dessa maneira. Geralmente apenas deixo o microfone no lado de fora da janela do meu apartamento e basta isso. É que os morcegos emitem um ultrassom fortíssimo, em muitas espécies a potência de emissão equivale ao do som de um daqueles martelos pneumáticos (britadeiras) usados para arrebentar concreto e asfalto, devido a isso é comum detectar morcegos a até mais de 100 metros de distância, e assim a coisa fica mais fácil de gravá-los. Tenho feito o teste de colocar um mini cata-vento perto do microfone. Quando há vento, o girar das pás produz uma percepção no cérebro do morcego pensando que é o bater de asas de uma grande mariposa. Essa é minha invenção. Tenho notado que eles se aproximam desta janela para tentar descobrir do que se trata. Os morcegos, como todos os mamíferos sentem uma curiosidade natural e se aproximam do cata-vento, quando então aproveito para gravar o som emitido bem de perto. Mas ainda não consegui provar se realmente isso funciona, preciso fazer mais testes.
Falo ao JPS: – Já pensou se pudéssemos ouvir o som do morcego, ninguém iria conseguir dormir a noite de tanto barulho!
Convicto JPS fala: – É isso aí! A natureza é sábia.
Pergunto: – E àquela hora em que eu estava chegando, o que era que você estava mesmo fazendo?
JPS responde: – Estava experimentando vários microfones de eletreto para ver qual era mais sensível ao ultrassom… O problema na construção do Detector de Morcegos é a dificuldade de se encontrar microfones apropriados que cheguem a frequências bem altas, então vou experimentando diversos, pois alguns são melhores que outros.
Pergunto: JPS poderia contar alguma coisa que tivesse relacionado morcegos e rádio?
JPS responde: Olha, além do radar que falei acima, os morcegos transmitem em FM, isto é em frequência modulada. Isso não é minha invencionice. A história do desenvolvimento tecnológico do Homem diz que ele inventou a transmissão em FM no final da década de 30, mas os morcegos a milhões de anos já usam essa técnica. Isso graças à evolução natural da espécie. Por isso que os cientistas estudam tanto os morcegos, têm muito que aprender com eles, pois é uma das maravilhas do reino animal. Claro que não na parte referente a beleza…
JPS responde: Você se lembra daquele radar soviético apelidado de “Woodpecker” que operava antigamente em ondas curtas? Era o tempo da “Guerra Fria”… Ele podia enxergar muito além dos outros radares porque usava os sinais refletidos pela ionosfera…
Respondo: – Sim, fazia uma barulheira danada.
JPS: – Pois ele transmitia em FM!
Pergunto: – Será que eles andaram espionando os Morcegos?
JPS: – Até pode ser! O homem gosta de imitar a natureza pois sabe que é um rumo certo a seguir! Ah! Lembrei-me de contar-lhe, que estou experimentando um novo Detector de Morcegos que não usa nenhum aparelho eletrônico além de um simples computador.
Falo: – O computador? Essa realmente não entendi, porque pelo que sei até agora, eles ainda não possuem ouvidos!
JPS: – No computador é possível fazer gravações com qualidade de Compact Disk, então eu ligo apenas um microfone nele e uso um programa analisador de espectro de áudio. Só que não vai ser possível escutar a gravação, mas sim ver na tela o desenho deixado pelo ultrassom emitido pelo morcego e é fácil observar os ecos que produzem nos prédios aqui da redondeza. Isso é muito interessante. Aliás, uma espécie que voa perto de minha janela emite sinais entre 14 e 18 KHz o que torna fácil a sua detecção no computador. Já estudei dezenas deles assim. Nesse aspecto pode-se dizer que o computador tem um “ouvido” tão bom quanto à de um cão que segundo soube escuta até 20 KHz. Mas este será assunto para a próxima vez.
Mas, JPS não tirava os olhos do papel que eu anotava tudo.
De repente ele disparou com a pergunta: – Espera aí, você vai transcrever isso na coluna Rádio Contato do boletim “Atividade DX”?
Respondi: – Sim, gostaria. Porque, não posso?
JPS: – Sabe o que acontece Turelli, é que se você colocar aí o meu nome vou ser motivo de chacotas…
Contestei: – Mas por que JPS? Já percebi que assunto é fascinante!…
JPS: – É que as pessoas têm enraizados dentro de si, preconceitos contra tudo que é feito de forma que foge aos padrões normais, por exemplo, a escuta dos morcegos. Ninguém se aventuraria em dar atenção e proteção a esses animais que sofrem uma tradicional restrição das pessoas. Se você colocar meu nome aí… aí vou ter zombações para o resto de minha vida. Vão me dizer que no mínimo estou querendo ser o Batman!
Respondo: Eureca! Tenho uma solução. Na próxima reunião do DXCP, vou perguntar para algum colega se eu posso usar o nome dele, em lugar do seu. Se alguém aceitar, daí estará tudo resolvido…
Ouço JPS falar baixinho: Pobre desse colega…
Digo-lhe: Fique tranquilo, é apenas uma brincadeira, acho que este assunto nem será publicado…
Mas, já era noite e o JPS ainda estava para soldar aquele novo microfone no Detector de Morcegos, vou-me despedindo porque não quero incomodá-lo mais. Agradeço toda atenção do JPS que me prometeu emprestar um daqueles aparelhos, para ver se consigo ouvir os ultrassons.
Despedindo-se JPS diz: – Apareça aqui em casa quando quiser, da próxima vez poderei estar escutando ainda algo de mais exótico…
Respondo: – Até a próxima!
Obs. 1: esta crônica foi colocada na Lista rádio escutas da Internet em 28 de julho de 1999
Obs. 2: eu não sabia como contar a história de como estava escutando os sons dos morcegos. Tinha receio de preconceitos. Então coloquei um personagem que conta a mim e aos leitores como conseguiu escutar os morcegos… Na realidade quis prestar uma homenagem ao meu amigo José Pinto Sobrinho (*11-09-1945 +Ang.22-09-2001) conhecido com “Zézinho da Eletro Tupi”. Na vida real ele nunca me chamou pelo sobrenome, mas sim de, “Roldão”. JPS sempre morou em Angatuba.
Publicado no boletim “Atividade DX” em agosto de 2005

3 comentários em “Sintonizando a banda dos morcegos”

  1. Luiz Greff, Guarulhos, SP disse:

    Como disse um poeta, relembrar é reviver! Bons tempos das primeiras práticas eletrônicas que iniciavam sempre pelo fascínio da radiotransmissão, a curiosidade de ouvir conversas distantes, receptores, radioescuta, rádios de galena, radioamadores e sua emocionante solidariedade humana, a troca ilimitada de conhecimentos e sabedoria entre gente que sabia muito, com os aprendizes no meio! Turelli é bem exemplo disso: usou sua criatividade e compartilhou como fazer um escutador de morcegos! Mas não ficou só na eletrônica. Como herdeiro de uma época de pioneiros e autodidatas, nos dá uma aula completa, rigorosamente científica, de como resolver desafios, ser amigo da Natureza e entender morcegos! De coração, Francisco Turelli, Muito Obrigado!

  2. Alionso de Paula disse:

    Muito bom o comentário e as explicações. Valeu!

  3. Rafael Candido disse:

    Artigo fantástico!!! Adorei!!!!

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